Nuno Prata

by Nuno Prata

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1.
Vai andando sobre as águas como um jesus acrobata, empenhado, um cidadão. A ele são umas tábuas a sustentar-lhe a bravata e a improvisar-lhe um chão. Dão-lhe pé, dissimuladas, já toda a gente as viu; nada que o embarace — as ilusões são furadas, mas se ainda não caiu pode ser que se ultrapasse. Tendo concebido o logro, acredita num milagre — não lhe importa o fim do estrado, pois esquecido da manha enfrenta-o como quem sonha, de tudo desobrigado. O que aos outros traz contentes, e lhes arrebata um bravo!, não é o truque é o tralho: escorrega, bate com os dentes — fulminado num esgar parvo, fica feito num frangalho. Tão lindo este cenário negando ao homem a fé, tão giro o fugir-lhe o pé, o aleijar-se a sério — tão humano este minuto de humilhação do aflito. Gabou-lhe a aventura o povo; não sendo nada de novo, é sempre entusiasmante ver alguém espatifar-se, ser testemunha do instante e comungar da catarse. Vai andando sobre as águas como um jesus desastrado, derrotado, um cidadão. Vai cuspindo suas mágoas como um bêbado chanfrado, assustado, um cidadão. Vai suspirando por tréguas como um cavalo cansado, acabado, um cidadão — empenhado cidadão.
2.
Esperemos que sim: que sejam os instantes entre lugares a legitimar a corrida. Se o não estar é que é vida, o estar é afinal o quê? É tempo morto, perdido? (Não sabemos se sim, se não.) Correr bem é correr de mais: é não parar em lugar nenhum. “Um dia” — como é que costuma dizer aquele teu amigo? Sem pausas, sem fim à vista, a errar entre o ser e o não estar — dos instantes, eis a questão. (Assumamos: ou sim, ou não.) Para que tudo nos soe lógico, invertemos à força a lógica — isto num esforço épico, desencontrado e fora de época. Aprendeste a tirar partido; dizes: “Estranho… Mas tudo bem.” (Eu não sei — se calhar, também.) Os instantes, os instantes… Não são estes tal qual os de antes? — há aqui pouco que comparar. (Concordamos que sim, que são.) Esgotados os sins, os seja, é mais que certo o resultado: o passado é um sapo engolido. Murmuramos ao próprio ouvido: “E já nem sequer é segredo que nos voltaremos a encontrar.” (Talvez sim ou talvez não.) Embora seja algo de mágico, soa sempre um pouco ridículo acrescentar ainda mais um fascículo — querer reviver um momento único. Esperemos que sim: que sejam os instantes entre lugares a legitimar a corrida.
3.
Fui lá a baixo fazer que faço, fingir que sou — nesse processo mais que um abraço me amparou. Faço o que posso, sendo quem sou; muito me queixo e deito abaixo — mas quem me conhece já me comprou. Simplesmente é isto; pouco mais do que isto. Fui de boleia com um amigo; forcei a ideia de que consigo assumir-me como ser capaz. Mas enquanto lá estive fiz o que faço: fingi que sou, andei a passo — perdendo tempo e oportunidades. Não te martirizes, criaste raízes — queres melhor do que isso? Voltei pra cima ao fim de um tempo; fazer que faço, fingir que sou — o mesmo processo mas num novo espaço. Não convencido mas empenhado, pois vi amigos por todo o lado com quem dissecar os meus desenganos. Deixa lá, que o tempo depois faz-te um desconto — pronto, simplesmente é isso; pouco mais do que isso; ou nada mais do que isso; ou isso isso isso.
4.
Minha escrupulosa inveja nem é coisa que se veja. É uma inveja modesta, e humildemente se presta a cumprir sua função: servir um sonho cansado de ser sonhado acordado, com sexo e morte à mistura. (Nenhum dos meus eus me atura tão triste imaginação.) Desce-me às noites na cama. Aí solta-se e derrama insultos que nem mereço — até que parvo do excesso os sufoco no edredão. Belisca-me as tripas por dentro, acuando-me no centro de um autófago apetite, que nem tragando o limite encontra resolução. É mesquinha a minha inveja, mesmo que apenas seja presumida — eu só percebo o seu encanto soberbo à luz débil da frustração. Há dias em que é sadia, alturas em que adia reles planos que acha nossos e me agasalha os ossos roídos na aflição. Minha inveja sou eu nu. Sendo coisa que nasceu do aplauso a peca virtude, cresceu com pouca saúde — em fazer-me viu missão.
5.
Julgava estar resolvido o instante em que sucumbiu a um sentir tímido e mudo. Nunca dele se livrou e hoje foi surpreendido plo fantasma de um passado, iminente e atravessado — ao tempo que este o deixou sozinho e desamparado à custa de ser só seu. Inventa agora um refrão, é tempo já de o fazer. Tens o quê para dizer? — conclui a dissertação. Jurou que não se lembrava; organizou o embuste: a inocentes palavras (nada que agora lhe custe) impunha o seu sentido. Virava frases do avesso, tentando dissimular segredos, sonhos, promessas — contagiasse a tolice, seriam dois desta vez. É tempo de outro refrão, não te esqueças de o fazer. O que é que tu queres dizer? — atalha à conclusão. Esta foi vez de lembrar — ou então foi vez pra esquecer. Achou-se na fantasia, sem saber bem o que queria foi-se deixando levar. Legitimou a corrida na fruição do instante, como se, adolescente, fugisse ao que sentia com medo de o revelar. Refrão, refrão, refrão. Fazer, fazer, fazer. Chegar, chegar, chegar ao cabo e ao fim da canção.
6.
Sentada à minha espera, sabe já com o que conta: para não se sentir tonta, de um querer intermitente, desiste de ser urgente a urgência que coloco naquilo que nos prometo. Desiste mas fica alerta, com a vontade certeira de fera à espera da presa — dando azo a que a surpresa seja sofrida por ela, já que o compasso de espera vai durando a vida inteira. É algo ingrato o processo: transforma-se em abcesso o corpo, pútrido poço onde nadam nada mortas (com umbilicais cordões enrolados no pescoço) ideias vagas e tortas — a fermentar por lá ficam. Porém, no esboço de um passo saldo a dívida comigo; é o melhor que consigo e aquilo que melhor faço: não tiro a teima final, escondo a pedra e atiro o braço. Sentada à minha espera, sabe-se já com que cara, com carga que desanima — tanta urgência para nada. Acaba por ser afronta, assídua ainda por cima, convocá-la e reprimi-la. Sentada à minha espera… Sentado à minha espera, sei já bem com o que conto: furtar-me sempre ao confronto é ambição suficiente.
7.
Hoje é feriado, não sei ao certo o motivo. Pode ser um santo extraviado, pode ser um outro sujeito antigo a quem um dia o dia foi dedicado — hoje a ninguém interessa o porquê, importa é poder passar um dia sossegado, ficar ao alto sem ter de estar em pé. Eu não quero estar sozinho em casa, eu não quero sair à rua sozinho. Só ontem soube que hoje era feriado, e os meus ricos planos de actividade esfumaram-se, traídos pelo maldito calendário. Hoje é feriado, não vejo nenhum sentido. Só se for um cristo estagiário; talvez seja um primeiro-de-maio afectivo — data que um dia eu, funcionário transtornado, encasquetava fosse o mês um qualquer, por me valer então o dobro do ordenado tão somente por ser capaz de me pôr a pé. Eu não quero estar sozinho em casa (…) Hoje é feriado, certo é que me escapa o motivo. Pode ser um feito extraordinário, pode ser um facto extremamente aborrecido; um esquecimento a merecer ser comemorado, um episódio que convém ser esquecido; algo digno de destaque num diário ou um apontamento chocho em rodapé. Eu não quero estar sozinho em casa (…) Hoje é feriado. E embora não encaixe o motivo hoje é, sem dúvida, feriado — apesar de meio torto estou relativamente objectivo.
8.
Passou-se I 00:26
Fizeste-o. Estás arrependido? Agora, meu amigo, a coisa já passou. Tu não és burro, percebes que um dia, mais à frente, há-de ficar tudo resolvido. Passou-se. Ficaste aborrecido? Agora só te digo: não te sintas só. Já sabes, quando te sentires impotente ao menos podes fazer par comigo.
9.
Levanta-te e anda, já não morres mais do que isso. Lá fora agora é primavera e o momento é propício. Então, levanta-te e anda — não morres mais por causa disso. Esforça-te a um sorriso e anda olhar o precipício; traz o teu velho medo de cair e os outros todos que esse arrastar. Ali, tendo à nossa mercê o chão, o céu azul e o mar, nada de mal nos pode acontecer — mortos estamos nós há meses, mas a esta carne apodrecida a vida ainda acode às vezes. Então, levanta-te e anda, vai — levanta-te e anda. Levanta-te e anda, andar mais não é que olhar com os pés — nos passos, o espelho do que és. Sem concluires se os comandas, avança numa direcção qualquer, repete os erros se te apetecer; não exijas porquês nem porque nãos, basta saber que nada de mal te pode acontecer — morto já tu estás há meses. Eu, nos anos em que vivi, nunca vi um morto morrer. Então, levanta-te e anda, vai — levanta-te e anda.
10.
Fiz por me lembrar de ti, mas não sei que voltas dei — pois que de mim me esqueci e de ti nem me lembrei. As voltas não tinham fim, e então, por fim, reparei que ao te procurar em mim de mim me desencontrei — mais que um momento, perdi, de facto, a noção de quem era e do que sinto em relação àquilo que às vezes tento. Tentei ter notícias tuas, não tinha a quem perguntar. Comecei, por isso, a andar às voltas, só, pelas ruas. Às voltas não dava fim, e então, por fim, percebi que procurando por ti perdia-me era de mim — porque, entretanto, tropeçava na ambição e atirava para um canto, em confusão, tudo aquilo que queria tanto. Queria tanto imaginar-te naquelas voltas que dava, mas o que delas sobrava eu punha logo de parte. Segui depois com as voltas, vendo de antemão que assim, que de tanto andar às voltas, as voltas falam por mim em contraponto e em qualquer situação em que se torne indistinto ao coração aquilo que me pergunto.
11.
A cada dia que passa, eu ainda penso: agora é que é, agora é que é. Desde que me lembro, desde que me conheço, agora é que é, agora é que é encontro sempre tempo para um novo começo — agora é que é, agora é que é e mais do que um começo eu antevejo o fim. Agora é que é. Agora é que eu vou mostrar o meu potencial. A cada dia que passa, eu ainda tento agora é que é, agora é que é enterrar o que sou debaixo do que me invento. agora é que é, agora é que é Mas o esforço é tremendo, não sei até quando aguento. agora é que é, agora é que é Invejo tanto os outros que até me esqueço de mim — assim é que é. Agora é que eu vou mostrar o escroque que sou. A cada dia que passa, eu ainda protesto: agora é que é, agora é que é a apodrecer por dentro é que me manifesto; agora é que é, agora é que é chorando o meu próprio fel chego a um ponto em que rebento. agora é que é, agora é que é Depois, volta tudo ao princípio — não há perigo, é sempre assim. Assim é que é. Agora é que eu resumi o assunto ao essencial.
12.
Passou-se II 00:46
Fizeste-o? Agora, meu amigo… Mas foste burro. Ficaste aborrecido? Mas, sabes, ao menos podes fazer par comigo.

credits

released November 25, 2014

Canções de Nuno Prata / Arranjos de Nuno Prata e Nico Tricot / Gravado por Nico Tricot e Nuno Prata no Itálico, entre Março e Julho de 2014 / Voz de Manel Cruz em "Simplesmente é isso" gravada por Manel Cruz na sala 7 / Misturado por Nico Tricot em casa / Masterizado por Nuno Mendes no Estúdio do Bandido / Design de Susana Fernando

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Nuno Prata Porto, Portugal

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